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Breves

quarta, 08 agosto 2018 00:00

Ricardo Pocinho, especialista em Envelhecimento Ativo, em entrevista ao JSM Destaque

“Quem olha para a vida como uma oportunidade de viver é, seguramente, feliz até ao último dia da sua vida.”

Professor Doutor Ricardo Pocinho, assessor do Conselho Diretivo da Administração Regional de Saúde do Centro, é um dos maiores nomes ligados à questão do Envelhecimento Ativo em Portugal. Considera que Portugal não tem uma política de Envelhecimento e que tem nas mãos um grave problema para resolver. Sobre a chegada à idade da reforma e para que não haja uma surpresa negativa, Ricardo Pocinho alerta para que cada um de nós, durante a nossa vida, pense no que quer fazer quando tiver que enfrentar esta etapa. Nesta fase é importante, ainda, a relação entre avós e netos. Para tal deixa um conselho: nesta altura de férias, os pais devem proporcionar tempo entre avós e netos.

 

Jornal de Santa Marinha (JSM): O que é o envelhecimento ativo?

Ricardo Pocinho (RP): É um conceito que advém de um conjunto de propósitos e de formas de viver. Envelhecer ativamente não é mais do que uma forma de viver. Uma forma que deve ser tida como algo de cada um, que tem a ver com os estilos de vida e que deve ser pensada muito antes da idade que nos poderemos considerar velhos. Hoje, e sobretudo desde 2012, ano em que se celebrou o Ano Europeu do Envelhecimento Ativo e da Solidariedade entre Gerações, fala-se muito deste tema de Envelhecimento Ativo como uma nova forma de criar atividades para pessoas idosas. É um conceito que tem de ser desfeito, porque envelhecer ativamente é ter uma forma de vida que deve começar a partir da idade que tomamos consciência daquilo que são as nossas capacidades, daquilo que são as nossas resistências. Temos de ir vivendo, contrariando essas resistências e essas limitações que a idade nos vai trazendo. Isto vai-se conseguindo com uma alimentação que seja capacitadora de termos menos doenças crónicas não transmissíveis; com a possibilidade de termos mais reserva cognitiva e de mantermos, até mais tarde, o nosso princípio ativo de decisão própria e de forma voluntária; de termos na sociedade uma participação ativa e cívica, mantendo papéis sociais.

 

JSM: Muitos de nós só tomamos conta que estamos a envelhecer quando entramos na reforma. Como é que podemos contornar esta situação, uma vez que a palavra reforma transporta-nos para aquele “cliché” – estamos na reforma, somos velhos. O que na realidade não é bem assim…

RP: Não. Não há uma idade para se ser velho. Há idade para nos sentirmos velhos. E sentimo-nos velhos quando fazemos coisas fora do tempo. As pessoas têm hoje vidas muito centradas naquilo que é o sucesso, na capacidade de terem disponíveis todos os recursos de bem-estar e, depois, acabam por não viver no tempo correto, a idade certa. Para todas as idades há um conjunto de atividades que podem ser feitas e o sentido de velhice advém quando, mais tarde, tentamos fazer coisas que não fizemos quando eramos mais novos. Portanto, viver cada um dos tempos no seu tempo é o segredo e ser-se velho é inevitável sobre o ponto de vista biológico, até porque envelhecer é o resultado de vivermos muitos anos e a alternativa a não ser velho não é nada interessante. É sinal que morremos novos e, por isso, é útil que cada um perceba que a idade de reforma que falamos, transporta-nos para um novo tempo, um novo ciclo de oportunidades, de podermos viver mais anos. É assim que deve ser entendido.

JSM: Envelhecer também significa olhar para a vida de uma outra forma, mais calma, mais tranquila, com mais experiência e mesmo mais sabedoria…

RP: Envelhecer é exatamente isso. É ir juntando um conjunto de anos. Mas, muitas vezes, a única coisa que as pessoas fazem ao longo do seu processo de envelhecimento é colecionar rugas, cabelos brancos e estarem muito preocupadas com tudo isto. Não vão tendo uma disposição para colecionarem antes boas recordações, bons ensinamentos e a capacidade de transportar isto para os mais novos. Este é, verdadeiramente, o interesse de envelhecermos, que é transportarmos para os outros aquilo que aprendemos, aquilo que realizámos e partilhar com eles aquilo que foram os momentos bons da nossa vida. Quem olha para a vida como uma oportunidade de viver é, seguramente, feliz até ao último dia da sua vida.

 

JSM: Nesta fase da nossa vida, o envelhecimento está ligado, também, à questão de sermos avós. Como podem os avós participar mais ativamente na vida dos netos?

RP: Os avós devem participar ativamente na sociedade e na vida dos netos, se isso for possível. Conheço alguns avós que se reformaram para tomar conta dos netos sem ter perguntado aos filhos se eles queriam que tomassem conta deles. Isto, em algumas situações, cria uma dimensão de frustração e de inutilidade de tal maneira grande que pensam: “Nem para isto sirvo”. Os avós devem ter, sobretudo, uma participação muito importante na sociedade. Quando há oportunidade, os netos devem ficar com os avós. Hoje sabemos que a sociedade, do ponto de vista das estruturas de ligação familiar, alterou-se muito nos últimos anos. Mas, aqueles que têm a possibilidade de ter junto de si os seus netos e aqueles que têm a oportunidade de ter como resposta social a casa dos avós, onde nós deixamos os nossos filhos agora nas férias, é sempre uma ótima oportunidade para ambas as partes. Quando procuramos um conceito de intergeracionalidade, encontramo-lo quando existe uma relação entre avós e netos. A possibilidade de os netos darem aos avós uma construção daquilo que é o seu mundo de hoje, é uma oportunidade única de os avós conviverem com os netos, de viverem no tempo de hoje, em relação, por exemplo, às tecnologias, aos comportamentos, àquilo que é a escola de hoje, às amizades e às relações construídas. Para os netos, é importante que lhes expliquemos a razão pela qual têm avós mais imóveis. Têm de perceber que ele é mais parado, porque, talvez, não tenha feito o exercício físico como devia ou, então, não tenha tido os cuidados necessários. Por outro lado, se têm ali um avô mais móvel e mais disponível, devem perceber que ali está, efetivamente, a figura que querem para si, mesmo para a condução da sua vida, com hábitos alimentares diferentes, com alguns cuidados e com estratégias de vida muito diferentes. E esta é a relação que interessa. Os avós servirem de exemplo aos netos e os netos servirem de apoio à dimensão da sociedade da informação e da atualidade que hoje vivemos.

JSM: Considera difícil, os avós acompanharem os netos nesta era moderna, onde tudo é diferente do tempo em que viveram? Falamos, por exemplo, dos comportamentos, da própria linguagem, do uso das novas tecnologias…

RP: Acaba por não ser difícil, porque difícil é para os pais. Os pais têm, efetivamente, uma maior proximidade com os filhos em relação a quase tudo, inclusivamente ao tempo que medeia a idade de um e a idade de outro. Hoje até há a oportunidade de quase todos terem experimentado as mesmas tecnologias, embora umas mais evoluídas do que outras. No entanto, a nossa disponibilidade de tempo é menor e os pais têm hoje muito pouco tempo para aos filhos. É aqui que os avós têm um contributo muito grande, porque estando mais desligados, mais desfasados daquilo que é o mundo de hoje, têm muito mais disponibilidade e tendo muito mais disponibilidade têm todo o tempo do mundo para aprender. Aqui, os pais têm uma responsabilidade única e maior, o de servirem de mediadores deste entendimento. Os pais têm que explicar aos filhos que se eles querem ser participativos nas brincadeiras com os avós têm de lhes ensinar a utilizar um tablet, por exemplo. Este período que agora se iniciou das férias escolares é um período interessante para, quando não há condições durante o ano letivo, netos e avós se encontrarem, porque, para a maioria das crianças, esta é a única oportunidade de saírem do registo diário e, às vezes, cansativo dos pais. A oportunidade de estarem com os avós permite uma nova aculturização, uma nova forma de vida, uma nova forma de olhar para o resto do ano. Portanto, aconselho todos que, nesta altura de férias, proporcionem tempo entre avós e netos.

 

JSM: É, então, bastante importante, estas transmissões de valores e de experiências entre ambas as partes…

RP: É extraordinariamente importante. Volto a referir que a falta de disponibilidade dos pais e, sobretudo, aqueles que nasceram depois da nossa democracia, têm, hoje, vidas muito condicionadas. A sociedade empurra-nos, cada vez mais, para termos diversos empregos e ocupações. Também porque a sociedade nos guiou para um caminho em que temos de dar tudo aos nossos filhos. E nós permitimos isso, a terem direito a ter tudo. E esta sociedade que todos construímos, por ter tantos direitos, acaba por desregularizar aquilo que são as relações parentais. E a relação com os avós acaba por ser a segurança dos pais. Esta nossa ideia de querermos trabalhar imenso, de querermos ter várias ocupações e várias funções na sociedade para podermos dar tudo aos filhos, acabamos por dar um conjunto de objetos e de prazeres que, no fundo, não são aquilo que, efetivamente, devíamos dar, que era o tempo, a disponibilidade e alguns ensinamentos para que pudessem viver na sociedade que hoje temos.

 

JSM: Para os avós é importante esta relação que mantêm com os seus netos, principalmente através das experiências que estes lhes vão proporcionando? Concorda que esta é uma maneira de eles se manterem mais ativos?

RP: Sem dúvida, e uma das melhores. Se quisermos beber deste conceito de envelhecimento ativo, temos de manter três grandes atividades ou pilares de suporte. Por um lado a mobilidade e a funcionalidade. Por outro lado, a reserva cognitiva e a capacidade de, até mais tarde, pensarmos por nós mesmos e termos papéis sociais. E a relação entre netos e avós traz isto tudo. Traz, por um lado, a capacidade ou a necessidade de o avô, se quiser acompanhar o neto, ter de se mexer mais e, portanto, quando falamos de mobilidade e de necessidade, não é preciso pensarmos em exercício físico. Há idades em que já nem é permitido o exercício físico. Muitas das vezes, quando se fala em envelhecimento ativo somos logo carregados para a ideia de atividade física. Contudo, atividade física é diferente de exercício físico. O exercício deve ser praticado e perpetuado por cada um de nós, de acordo com aquilo que são as nossas capacidades e as nossas limitações. Portanto, não é boa ideia, a determinada altura da nossa vida, resolvermos fazer exercício físico como se não houvesse amanhã e como se pudéssemos recuperar o tempo perdido. É preciso que isto seja acompanhado por um clínico, é preciso que saibamos o nosso estado de saúde e que conheçamos as nossas limitações. Até porque, fazer exercício físico em determinadas idades, com a capacidade de podermos ficar sempre em último, em qualquer coisa, pode levar a que consigamos mesmo sentir a ideia que estamos velhos. Velhos, porque não conseguimos e, apenas, estamos a fazer uma coisa para a qual não temos idade. Nisto, os netos são ótimos, porque obrigam os avós a mexerem-se mais e obrigam mesmo os avós a terem registos de sonolência diferentes. As pessoas, a partir de uma determinada altura, têm dois grandes registos de sono: um, que é a capacidade e a tranquilidade de poder descansar mais e o outro, de alguma forma forçado, é de não entender que, a partir de determinada altura as necessidades de sono são diferentes e, portanto, como há muito pouco que fazer, porque se está reformado, então o que faz é recorrer a fármacos para dormir muito. Os netos nisto são uma ajuda extraordinária para os avós. Os avós vivem muito no registo de acordarem mais cedo do que aquilo que era normal, permitindo que o registo diário seja mais interessante. Depois, a capacidade que têm de ter para se relacionarem com pessoas muito mais novas, que são os netos, e muito mais exigentes, porque são os netos, os avós querem ouvir dizer, com elevado prazer, “este é o meu avô” e tudo fazem para merecer esta admiração. Às vezes fazem, inclusivamente, campeonatos entre avós, para ver qual é o avô mais divertido em relação ao outro e vão fazendo perguntas ao neto: “quem é o mais divertido?”. E tudo isto é útil, porque a vida, quando é vivida com esta disputa saudável, quando é vivida com estas oportunidades, é uma maneira de crescimento para ambas as partes.

 

JSM: Podemos falar da existência, em Portugal, de uma política de envelhecimento? As entidades governamentais têm desenvolvido algum trabalho ou acompanhamento nesta área do envelhecimento ativo?

RP: Não. Portugal, como a maioria dos países da Europa, conheceu aquilo que hoje estamos a vivenciar há muitos anos atrás. Não é novidade para ninguém que somos um país de velhos. Não é novidade para ninguém que temos aqui um problema para resolver nos próximos anos e não é novidade para ninguém que, há muitos anos, começámos a perceber que isto poderia acontecer. Não é querer ser crítico, em absoluto, com as políticas que têm sido tomadas, mas antes querer ser crítico em relação àquilo que hoje continua a ser o discurso. Hoje ainda ouvimos “se isto acontecer, vamos ter um problema”; “se não houver mais nascimentos, vamos ter uma complicação”. Este é um discurso que já não faz sentido e de há 20 anos para cá muito menos. Hoje estamos perante um problema que não tem a ver com o facto de as pessoas durarem mais tempo. O problema é de como é que se vai sustentar uma sociedade que tem o seu número de pessoas em crescente contínuo. Neste ano de 2018, eramos, no início do ano, mais de dois milhões e meio de pessoas com mais de 65 anos de idade e esse número vai duplicar nos próximos 20 anos, sobretudo na faixa etária depois dos 85 anos, onde estão os maiores gastos do Estado com pessoas de idade. E nós, os que estamos em idade ativa, quase sempre, quando falamos deste problema de défice demográfico e deste desequilíbrio demográfico, aquilo que nos vem à cabeça é a possibilidade de estarmos hoje a trabalhar para uma reforma que não vamos ter, porque todos falamos e todos acreditamos numa possível falência da Segurança Social, do Estado Social. Mas a maior preocupação tem que ser com a saúde. Poucos são aqueles que asseveram como problema a questão da saúde. E é aqui que pode residir o verdadeiro problema do país. Nós somos críticos, mas muito habituados, que independentemente das horas que passamos nas urgências, acabamos por ser atendidos. Vivemos num país onde ninguém fez nada para corrigir esta situação e onde não se criaram verdadeiras políticas de natalidade, que é a única forma de resolver o equilíbrio demográfico. Não se criaram estas políticas, não se equilibraram as coisas e, hoje, temos pessoas com mais idade. Devíamos ter passado à fase seguinte, ou seja, o de adaptarmos e adequarmos o país a esta fenomenologia. E a única coisa que tem sido feita é a criação de estruturas residenciais para pessoas idosas. E aqui há alguma coisa de incorreto? Não. Aquilo que é incorreto, é o de conduzirmos as pessoas para a única resposta que é a institucionalização, quando devíamos permitir que as pessoas vivessem o mais autónomas possível e até mais tarde. Temos de ter um verdadeiro plano para a saúde; explicarmos às pessoas que a determinada altura têm de ser conscientes daquilo que lhes poderá vir a acontecer; ter no Estado verdadeiras políticas que sejam capazes de demonstrar aos jovens que vale a pena fazer desporto e praticarem exercício físico e que não vale a pena recorrerem a adições. Temos de criar, verdadeiramente, uma estratégia para o não recurso, em idade tão antecipada, a fármacos, ligados às ansiedades e às depressões. Por um lado estamos a conduzir Portugal para um país que recorre a comprimidos para quase tudo. A comparticipação que o Estado faz para este tipo de medicação, de certeza absoluta que seria muito menor, caso estes recursos fossem aplicados em estilos de vida saudáveis ou em oportunidades, de maneira a que as pessoas desenvolvessem nas suas aldeias, vilas ou cidades, atividades de fim-se-semana ou de fim de dia que lhes permitissem, a libertação dos estilos de vida, hoje altamente não saudáveis. Quer parecer-me que esta é a única estratégia que temos de seguir, porque nos próximos 20 anos não podemos corrigir este problema. Queremos continuar a ser um país civilizado, e se queremos ser um país civilizado temos de pensar que, nos próximos 20 anos, não temos nenhuma solução do ponto de vista do equilíbrio. Já que não temos, há que criar soluções para aqueles que estão a envelhecer, envelheçam com mais qualidade e com menos custos para o Estado.

 

JSM: Portanto, Portugal é um país envelhecido.

RP: Portugal é um país envelhecido e um país de velhos. Envelhecido, porque é um país com uma estrutura demográfica a partir dos 65 anos de idade e, depois, é um país de pessoas que sentem a velhice muito cedo. Portugal, como outros países da Europa, fixou a estranha ideia de que com 65 anos tudo muda. Verdadeiramente, as pessoas, a partir dos 65 anos, só por festejarem mais um aniversário, parece que alguma coisa vai mudar. Deste ponto de vista, para além de sermos envelhecidos, somos velhos. As pessoas vivem com muita tristeza e até diria, com muito arrependimento em relação àquilo que não fizeram. Não olham para a vida como uma oportunidade. E se olharmos para o registo institucional, isto ainda é pior. Estas pessoas vivem cada dia completamente prostradas e ausentes do mundo. E é aqui que temos de fazer um trabalho muito grande em demonstrar às pessoas que o facto de fazerem 65 anos e de transitarem para a reforma não altera rigorosamente nada, desde que se preparem para isso. Este marco de saída do local de trabalho e da sua atividade diária leva a que a maioria das pessoas vivencie, depois, uma experiência de elevada infelicidade. Elas têm tudo para serem felizes, porque queriam reformar-se e conseguiram. Por isso, têm mais é que ser felizes.

 

JSM: E por isso, daí advêm as depressões e outras doenças crónicas… que atitudes devem tomar?

RP: Não há qualquer dúvida sobre isso. Aliás, um dos melhores e maiores estudos dimensionados na Europa sobre este assunto é de um alemão, Paul Baltes, que estudou durante 30 anos esta questão da transição para a reforma. Chegou à conclusão que a maioria das pessoas é apenas feliz durante três meses depois de se reformarem. E por que razão? Os que são felizes são aqueles que fizeram um projeto de vida para a reforma. E é isto que alerto as pessoas para o fazerem. Ao longo da nossa vida, não gastamos 10 minutos por dia a pensar no que queremos fazer quando nos reformarmos ou quando formos velhos. Devemos preparar-nos e saber o que queremos fazer. É este tipo de estratégias que cada um deve ter para si; perguntar a si mesmo, nem que seja de vez em quando, o que quer fazer quando se reformar. O trabalho, da forma que hoje é instituído, é vivenciado, por muitos, como um verdadeiro castigo. E a reforma é o quê? Para muitos, a libertação. A libertação de não ter que ir trabalhar todos os dias. E quando se faz apenas por libertação, o sentido de liberdade acaba rapidamente. Por isso, a partir dos tais três meses, há que adotar uma estratégia nova, um registo diário completo e de atividades, para que a sua vida não se transforme numa infelicidade maior do que aquela que já vivenciaram. Por isso encontro pessoas que me dizem que a pior coisa que fizeram foi reformar-se.

 

JSM: Em termos pessoais, o Dr. Ricardo pensa, também, em toda esta questão do envelhecimento? Como está a preparar o seu futuro?

RP: De uma forma perfeitamente normal. Eu tenho um estilo de vida muito “bebido”, da obra de Sigmund Freud e o que ele dizia é que queria envelhecer, a amar e a trabalhar. E eu também. Portanto, quero envelhecer desta forma, trabalhar até morrer, quero amar até morrer e ser amado até morrer. Para ser amado vou cultivando as minhas relações e os meus relacionamentos e para trabalhar vou mantendo as minhas faculdades. Faço, efetivamente, um grande treino mental e vou-me poupando daquilo que são as doenças que advêm dos meus estilos de vida, libertando-me de comprimidos, fazendo caminhadas e monitorizando a saúde. E enquanto a condição de vida permitir, quero estar muito longe daquilo que são as ajudas farmacológicas. Não há segredos e aquilo que quero é ser feliz.

 

JSM: Qual a mensagem que pode deixar a todos para entrarmos nesta fase da nossa vida com tranquilidade?

RP: Quero deixar um registo de oportunidade. A vida é só uma e uma só. Devemos ser para os outros um exemplo de vida e sermos, com os outros, diferentes daquilo que os outros são para connosco de modo a vivermos num clima de paz e amor. Isto é possível na sociedade que vivemos hoje, desde que entendamos que a maioria das coisas que acontece à nossa volta não tem a ver connosco. Como congressista costumo perguntar a cada uma das pessoas que me está a ouvir o que quer fazer quando for velho. Nenhum deles quer ter carros de luxo ou casas junto à praia. Dizem sempre que querem ser saudáveis e felizes. A partir do momento em que todos queiramos ser saudáveis e felizes quando envelhecermos ou quando formos velhos, é bom começarmos a pensar no que fiz hoje para ser feliz. Temos que ser nós a dar o primeiro passo e temos de ser nós a aproveitar essa felicidade. A felicidade advém de nós e primeiro é para nós e depois distribuímos pelos outros. Não é um sentido de egoísmo. É um sentido de que a nossa vida é igual à dos outros e também é só uma.

Ricardo Pocinho nasceu em Soure, em 1974, é casado e pai de dois filhos. É Licenciado em Direito, Doutorado em Processos de Formação pela Universidade de Salamanca (2009) e em Psicogerontologia pela Universidade de Valencia (2014). Nesse mesmo ano concluiu um Pós-Doutoramento em Ciências da Educação, Especialidade de Educação Permanente e Formação de Adultos pela Universidade de Coimbra. É Investigador do Centro de Estudos Interdisciplinares em Educação e Desenvolvimento da Universidade Lusófona e do INTERTECH – Interdisciplinary Modelling Group, Universidade Politécnica de Valência. Colabora com o LIPIS – Laboratório Interdisciplinar de Pesquisa e Intervenção Social – Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, Brasil e é Presidente e Coordenador Cientifico da Associação Nacional de Gerontologia Social. É Professor colaborador do programa de doutoramento Formação na Sociedade do Conhecimento, na Universidade de Salamanca. Entre 2009 e 2014 esteve nomeado e eleito na União Geral de Trabalhadores, Secretário-Executivo e Presidente, data onde foi nomeado Secretário da Escola Superior de Tecnologia da Saúde de Coimbra, lugar que ocupou até dezembro de 2016. Atualmente exerce funções na Assessoria ao Conselho Diretivo da Administração Regional de Saúde do Centro, onde é funcionário desde outubro de 1997, foi fundador e Reitor da Universidade Sénior do Mondego da Fundação ADFP. Coordena e leciona várias Pós-graduações ligadas ao envelhecimento e ao terceiro setor. Escreveu mais de 200 textos originais, entre livros, capítulos de livros, artigos científicos e de opinião. Investiga e coordena projetos sobre educação, sociedade e envelhecimento, que promoveu na última década em mais de 200 conferências e milhares de horas de formação.

 

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