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Breves

quarta, 02 outubro 2019 00:00

Entrevista a Carlos Peixoto, cabeça de lista do PSD pelo distrito da Guarda Destaque

“A saúde está doente, muito doente e poderá ficar muito pior”

Jornal de Santa Marinha (JSM): O Dr. Carlos Peixoto já vai para o terceiro mandato de deputado. Não acha que devia haver também limite de mandatos para deputado?

Carlos Peixoto (CP): Ainda que um deputado não exerça funções executivas e o limite de mandatos esteja mais pensado para estes cargos, não me oponho a essa limitação. Essa é uma tendência transversal – e direi que inevitável – em vários órgãos e em várias instituições, e julgo que será já na próxima legislatura que a questão será suscitada. Se for confrontado com ela, não votarei contra.  

JSM: Em Seia houve algum desconforto por ter sido indicada para terceiro da Lista uma independente, em detrimento da presidente da concelhia? Quer explicar-nos esta situação?

Carlos Peixoto (CP): A escolha da Dra. Sara Campos não foi feita em detrimento de ninguém em especial. Foi feita em benefício da candidatura que lidero. Há em Seia diversas pessoas que a podiam integrar e quando optei por uma excluí automaticamente todas as outras, por não ser razoável num distrito tão extenso e numa lista tão curta, colocar na equipa dois candidatos do mesmo concelho. Numa altura em que toda a gente enche a boca com críticas contra os ‘boys e as girls’ dos aparelhos dos partidos e em que são cada vez maiores as rejeições dos carreiristas da política, orgulho-me muito (e o PSD também) de ter convencido uma independente, sem cartão nem filiação partidária, a aderir ao nosso projeto. Trata-se de uma médica conceituada do Centro de Saúde e do Hospital de Seia, que também presta serviço em instituições de solidariedade social do concelho, e faz voluntariado. Tem aqui a sua vida familiar e profissional estabilizada e é uma jovem muito válida, com enormes qualidades humanas e profissionais. Conhece a realidade do concelho e domina por completo a área da saúde, que mais maltratada tem sido por este Governo. É uma mais valia para a candidatura e uma lufada de ar fresco para a política senense e distrital.  

JSM: A coesão territorial e o desenvolvimento do interior vai lá só com medidas simbólicas?

Carlos Peixoto (CP): Não. Esse tem sido o erro trágico dos sucessivos Governos, com particular destaque para o que está em funções. Fala muito e nada faz. Não tomou uma medida que se visse a esse respeito. Em tempo de maior bonança e já sem o garrote da Troika que condicionou por completo os anos anteriores, recusou fazer o IC 6, o IC 7 e o IC 37, (o IP3 não sai do papel, apesar de já ter sido anunciado duas vezes nos últimos dois anos…) não facilitou a instalação de empresas nem incentivou investimentos, não criou novos serviços públicos na região, e até obrigou o PS a votar contra o projeto do PSD que propôs o programa ‘Erasmus’ para o Interior, assim afastando estudantes de fora que por cá se poderiam fixar. Até no que respeita aos médicos, negou-lhes o pagamento do subsídio devido pela prestação do serviço em zona carenciada, o que provocou já uma rescisão no Centro de Saúde de Seia e arrisca provocar uma segunda no Hospital. O país precisa de um Plano Nacional de Coesão Territorial que tenha o acordo de todos os partidos, ou da sua larga maioria. O país precisa de um Governo corajoso e arrojado que defina políticas fiscais capazes de atrair pessoas e empresários para o Interior, que revejam toda a rede do Ensino Superior e que instalem os novos serviços públicos nas regiões menos povoadas. É também urgente que se desenhem medidas de reflorestação e de ocupação do território, em vez de apenas se atirar dinheiro para combate aos incêndios que jamais deixarão de nos destruir se não apostarmos na prevenção e no cultivo das nossas terras. 

JSM: A saúde está pelas ruas da amargura no nosso distrito. Que paliativos preconizam para melhorar?

Carlos Peixoto (CP): A saúde está doente, muito doente e poderá ficar muito pior. Não há médicos nem enfermeiros, há 9000 utentes, só em Seia, sem médico de família; as listas de espera são obscenas; não há medicamentos nem material cirúrgico suficientes, e estamos a perder especialidades de dia para dia. Se há setor em que não devia haver cativações é na saúde, mas houve, e de que maneira. Os passes sociais em Lisboa e no Porto podem até ficar mais baratos, e é justo, mas os 440 milhões de euros que custa a medida em ano de eleições fazem falta para tratar e para salvar a vida de muitos portugueses. É claro que é urgente a contratação de mais profissionais e é vital que se pense o futuro da saúde na região por forma a que se determine se devemos ter três ou quatro Hospitais com muitas valências e especialidades mas a funcionarem todas deficientemente, ou se é preferível apostarmos na complementaridade entre os Hospitais da Guarda e Seia com os de Castelo Branco, Covilhã e Viseu dotando cada um deles de especialidades diferentes, ainda que em numero inferior, mas a funcionarem todas bem e a servirem eficazmente toda a região. Este debate tem de ser feito e não há como não definir uma estratégia integrada para toda a região. Se a Guarda tem um serviço de pneumologia de referência e de qualidade ímpar, é para lá que deverão ser conduzidos todos os utentes desta grande região. Mas se o serviço de oftalmologia predominar na Covilhã, é este Hospital que deve preferencialmente tratar de todos os doentes a precisar dessa especialidade.

JSM: Os Órgãos Autárquicos eleitos pelo PSD, que inclusive têm como Vereadora uma médica, a Dra. Fabíola Figueiredo, na campanha eleitoral de 2017 e neste momento, continuam a defender a saída do Hospital de Seia da Unidade Local de Saúde da Guarda e a sua agregação ao Centro Hospitalar Tondela Viseu. O próprio Município de Seia tem vindo a admitir esse cenário. Qual a sua opinião neste caso, assim como da candidata de Seia?

Carlos Peixoto (CP): Ao longo dos tempos foi sendo criado um estigma relativamente ao Hospital da Guarda. Admito que a perceção pública sobre os serviços que nele são prestados não é totalmente positiva. Nada que não possa e que não deva ser modificado. Mais importante que saber se os doentes de Seia devem ser tratados na Guarda ou em Viseu, é serem tratados convenientemente e com rapidez. Se o serviço que necessitem for mais qualificado na Guarda, é para lá que devem ir e que quererão ir. Uma coisa estou em crer. A população de Seia, pela sua expressão, parece-me para a criação de um Centro Hospitalar habilitado no distrito da Guarda, pelo que a sua agregação por via administrativa a Viseu fará perigar qualquer projeto ambicioso e com futuro no nosso distrito.    

JSM: Por que razão defende a redução e não a eliminação das portagens para o interior, tendo votado contra tal no Parlamento?

Carlos Peixoto (CP): Não votei contra a eliminação das portagens no Interior. Eu, e todos os deputados do PSD, abstivemo-nos em dois projetos do PCP e do BE que recomendavam ao Governo a abolição das portagens na A23 e na A25. Quem votou contra foi o PS, por ordem do Dr. António Costa, que no seu programa eleitoral de 2015 previa exatamente a abolição das portagens!!! Não votei a favor dessa abolição porque sempre defendi o princípio do utilizador-pagador. Era bom, mas o país não está ainda em condições económicas de prescindir das receitas das portagens. Se o fizer, o dinheiro faltará noutro setor qualquer, nomeadamente nas reformas e nos salários dos funcionários públicos. O que defendo é que nessas auto-estradas do Interior as taxas sejam significativamente reduzidas e irei até apresentar um projeto na próxima legislatura para que essa redução seja de 50% para os veículos a combustão e 75% para os veículos elétricos. Também não votei contra os Projetos, porque só o Governo e o Ministério da Finanças saberão se têm ou não excedentes orçamentais para prescindir destas receitas. Seja como for, essas iniciativas do PCP e do BE foram uma deplorável encenação, um número de circo que é preciso denunciar. Esses partidos, que apoiavam o Governo e já sabiam de antemão que os projetos seriam chumbados, foram os mesmos que apenas dois meses antes tinham aprovado o Orçamento de Estado de 2019 onde se previam as receitas dessas portagens que queriam abolir... Enfim, um triste malabarismo que, apesar de tudo, encheu manchetes dos jornais regionais e alimentou uns dias de redes sociais que não conhecem bem as manhas e os truques parlamentares.

JSM: Qual a sua opinião quanto à descentralização de competências e regionalização? E à existência de serviços públicos e privados, como por exemplo, na Saúde?

Carlos Peixoto (CP): Sou a favor da descentralização de competências, porque os serviços melhoram se forem prestados com maior proximidade. O que é necessário é que os Municípios sejam dotados dos meios financeiros que os capacite a executar tais competências. Sou também totalmente favorável à coabitação de serviços de saúde públicos e privados, com a possibilidade dos utentes escolherem aqueles que melhor servirem as suas necessidades. Quem precisa de um tratamento médico não quer saber se o Hospital onde vai é público ou privado. Quer apenas ser tratado com qualidade e com eficácia. Quanto à regionalização, julgo que todos os portugueses precisam primeiro de ter a convicção de que a sua instituição não cria mais despesa, mais burocracia e mais pessoal político. Essa convicção só se adquire com um estudo aprofundado, que ainda não foi feito.  

JSM: Se o resultado destas eleições no distrito não forem uma vitória, pondera a sua demissão de Presidente da Distrital?

Carlos Peixoto (CP): Não, de todo. A vida política (e a vida em geral) é feita de vitórias e de derrotas. Da mesma forma que não devemos embandeirar em arco com as vitórias, que são sempre efémeras, também não devemos abandonar o barco com as derrotas, que são sempre conjunturais. Devemos é assumir e cumprir os nossos mandatos e é isso que eu farei. Em junho de 2020 terminarei este meu ciclo de 6 anos e três mandatos como Presidente da Distrital. Faço-o transportando comigo um trabalho muito intenso e também muito gratificante. O PSD é um grande partido. 

JSM: Como está a Justiça ao nível nacional e ao nível do distrito, uma vez que houve o encerramento de Tribunais e retirada de competências em várias unidades no Distrito? 

Carlos Peixoto (CP): A justiça tem ainda de melhorar muito no tempo de resolução dos processos, tanto assim que o investimento estrangeiro elege a celeridade da justiça como fator prioritário na decisão de escolher o nosso ou outro país para apostar. Ainda assim e tirando os mega processos mediáticos que ‘assassinam’ o caráter de muita gente na comunicação social, com intoleráveis violações do segredo de justiça, não é seguramente o sector que mais preocupa os portugueses. A mim ocupa-me muito, porque sou advogado e Vice-Presidente da Direção do grupo parlamentar do PSD para esta área, sei que é um importante motor da economia, e tenho a certeza sei que há ainda muito a fazer para a tornar mais ágil.   

JSM: Que ideias têm para atrair empresas e gerar desenvolvimento nesta região?

Carlos Peixoto (CP): Para mal dos nossos pecados, o drama da região já não é só a falta de empresas. É a falta de pessoas, o que é mais grave. Falo com dezenas de empresários do distrito que não têm trabalhadores para contratar, mesmo sem qualificações especiais. Logo, teremos de ir ao fundo da questão e procurar encontrar pessoas com medidas dirigidas para a promoção da natalidade, protegendo a parentalidade e a primeira infância. Devemos também apostar em medidas direcionadas para a imigração, atraindo pessoas de outros países que compensem as saídas de milhares de portugueses de Portugal todos os anos. No que respeita as empresas, há uma combinação de fatores que podem fazem a diferença. Uma política fiscal amiga do investimento no Interior, a oferta de creches gratuitas até aos 6 anos a trabalhadores de unidades na região, uma boa rede de prestação de cuidados de saúde, uma mais eficaz interação dos estabelecimentos do Ensino Superior com as empresas, uma redefinição das regras de atribuição do rendimento social de inserção e do respetivo quantitativo, uma isenção parcial da TSU que permita libertar fundos para aumentar os salários dos trabalhadores, a redução do custo das portagens e  uma maior dedução dos custos da energia no IRC das empresas são algumas ideias para debater, desenvolver e acima de tudo, por em prática. Depois da proclamada saída da bancarrota e de quatro anos perdidos para o Interior, julgo que estamos agora em condições para agir. Haja coragem. 

 

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