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Breves

quarta, 02 outubro 2019 00:00

Entrevista a Carlos Pinto, cabeça de lista do Partido Livre pela Guarda Destaque

“Sou filho do interior beirão e para mim chegou a hora de retribuir ao interior tudo o que dele recebi”

Carlos Jeremias Pinto, 42 anos, natural de Angola. Cresceu e viveu em Seia, de onde o seu pai é natural. Ingressou na GNR em 1997, onde é Sargento-Ajudante, no ativo. 

Jornal de Santa Marinha (JSM): Que avaliação faz da governação dos últimos quatro anos e da ação dos deputados do círculo da Guarda? Carlos Pinto (CP): Uma degradação sem precedentes dos serviços públicos prestados às populações, sendo particularmente sentido na saúde e nos transportes; redução do rendimento disponível das famílias em virtude da carga fiscal que penaliza ferozmente a classe média; redução da diferença salarial que existia entre o emprego qualificado e o Salário Mínimo Nacional (SNM). Como exemplo, em 2001 um enfermeiro, um bancário ou um polícia auferiam cerca de 3 SMN líquidos, hoje dificilmente chegam aos 2 SMN. Ou seja os portugueses não têm dinheiro no bolso. 

A nível europeu, em termos de PIB per Capita (riqueza obtida por cada pessoa), em 1995 eramos o 17.º país na “Europa a 28”. Os dados provisórios relativos a 2017 indicam que caímos para o 21º lugar, no qual fomos alcançados pela Eslováquia e, em breve, seremos ultrapassados pela Polónia e pela Hungria. Ou seja, relativamente aos parceiros Europeus, os Portugueses cada vez ganham menos, o que significa que estamos a empobrecer. E isso não é motivo para festejar! 

A nível nacional, temos visto o Governo feliz com os resultados alcançados nas finanças públicas, conseguido à custa do desinvestimento em serviços essenciais às populações conjugado com uma brutal carga fiscal camuflada nos impostos indiretos, por serem menos percetíveis ao cidadão. Mas se olharmos em concreto para o dia-a-dia de cada um nós, temos: quanto à nossa realidade regional, o Círculo da Guarda elegeu nas últimas Eleições Legislativas 4 Deputados, 2 Deputados do PS e 2 Deputados do PSD. E tem sido mais ou menos assim há mais de 40 anos. 

Como Beirão e olhando os dados atuais relativos ao nosso distrito, podemos dizer que a atuação destes Deputados foi totalmente ineficaz. Não são conhecidas atividades, projetos e intervenções específicas que estes Deputados tenham realizado em defesa dos Eleitores que os elegeram. É preciso ter consciência que estes Deputados estão subjugados aos interesses dos seus partidos para os quais o nosso distrito representa muito pouco. Mais facilmente estes Deputados defendem a redução do preço do passe social em Lisboa do que se batem pela promoção de transportes públicos de qualidade e intermunicipais no distrito da Guarda. 

Se tomarmos em conta a variação da nossa população residente, que é desde logo a primeira consequência da falta de oportunidades de emprego e um indicador para falta de atração e fixação dos jovens, percebemos que todos os municípios do distrito da Guarda perderam população. Em média cada concelho perdeu 5% da sua população, sendo que Aguiar da Beira, Almeida e Sabugal, perderam mesmo 6% da sua população. 

Para se ter uma ideia, o distrito perdeu nos últimos 4 anos mais de 6.200 residentes. Esta redução de residentes é superior à população de quaisquer dos Concelhos de Aguiar da Beira, Figueira de Castelo Rodrigo, Fornos de Algodres, Manteigas e Mêda. E tudo indica que este ano Celorico da Beira também será incluída na lista. Isto é um grande motivo de preocupação se tivermos em conta que mais de metade da população tem mais de 60 anos. Se nada for feito nos próximos 10 anos alguns concelhos quase não terão residentes. E não devemos ficar à espera que algo aconteça por si. Distritos como Portalegre e Castelo Branco sentem este problema com mais intensidade e que saibamos nada foi feito. Logo se nós não decidirmos mudar o resultado é conhecido. 

Mas se olharmos à densidade empresarial do distrito, a média é 3 empresas por km quadrado. Sabugal, Almeida e Figueira de Castelo Rodrigo, têm menos de 2/km quadrado. 

Estes dados refletem a falta de políticas públicas de combate à desertificação do interior e resulta em grande parte da inércia e da falta de trabalho e de dedicação dos Deputados do PS e PSD em defesa da região que os elegeu. 

JSM: Um dos grandes problemas dos territórios de baixa densidade, em particular do nosso distrito da Guarda, é o despovoamento e a desertificação do território. Que medidas têm para reverter a situação, fixando e atraindo pessoas, combatendo o envelhecimento da população e a baixa natalidade? 

CP: Acho que é unânime afirmar que sem emprego de qualidade e sem salários atrativos, não é possível atrair e fixar aqui os nossos jovens. Não havendo jovens também a natalidade é gravemente afetada e o envelhecimento da população torna-se inevitável. Ora, já temos concelhos como Almeida e Sabugal com mais de 5 idosos por cada jovem com menos de 15 anos. Isso é preocupante. 

Nos últimos anos tenho viajado pelo mundo e dediquei-me a observar regiões rurais com grande pujança e com dinâmica económica. A conclusão a que chego é que a interioridade não é em si mesma um obstáculo ao desenvolvimento. 

As novas dinâmicas ligadas ao envelhecimento ativo e com qualidade, a consciencialização e luta pela preservação da natureza e o amadurecimento do interesse pelo ecoturismo, pelo turismo sénior e pelo turismo gastronómico, são fatores de desenvolvimentos cuja oportunidade temos de aproveitar, pois, temos aqui na nossa região um potencial incrível e que tem sido gravemente negligenciado. 

Existiram alguns incentivos ao empreendedorismo e ao desenvolvimento das zonas rurais, nomeadamente Portugal 2020 ou até os apoios da Fundação La Caixa (detentora do BPI), só para citar alguns exemplos, que a nossa região não tem sabido aproveitar. E como é que isso se faz? 

No LIVRE defendemos que as oportunidades, identificadas como fatores de desenvolvimento, devem servir de locomotiva ao progresso da região, definindo-se projetos estruturantes, devidamente enquadrados e a executar no médio e longo prazo. 

Para facilitar a sua execução, defendemos a promoção do associativismo em áreas chave e que se mostrem criticas à execução dos projetos. Defendemos, também, como essencial ao estabelecimento de parcerias estratégicas entre os diversos agentes e entidades relevantes da região que, agindo de forma coordenada e em harmonia com o objetivo comum, facilitem o ambiente de negócio e a consolidem a confiança no potencial da região. 

No fundo, acreditamos que se fomentarmos o trabalho em rede, com um propósito único, conseguiremos alcançar com sucesso os objetivos. Sendo bem-sucedido várias pessoas, empresas e municípios, direta ou indiretamente, obterão vantagem e isso fomentará o aparecimento de novas ideias, projetos e negócios o que permitirá inverter o destino do abandono, envelhecimento e desertificação que nos querem condenar. 

É necessário ajudar os jovens empreendedores, encorajando-os, apoiando as suas iniciativas e ajudando a executar as suas ideias. Para tal, precisamos que, através dessas parcerias, se disponibilizem centros de apoio ao empreendedorismo onde jovens possam encontrar todo o apoio necessário, desde a elaboração de projetos, à submissão de candidaturas a programas governamentais, bem como à constituição de empresas e ao pedido de financiamento. Estas medidas permitirão fixar alguns dos nossos jovens bem como atrairão outros que pretendam viver em comunhão com a natureza. 

De acordo com as projeções da OCDE, a tendência do turismo passará pelo turismo de natureza, turismo cultural e gastronómico. Também as pessoas tenderão a optar por viver em pequenos centros urbanos e em harmonia com o meio ambiente. Ora a nossa região tem um potencial enorme que deve ser aproveitado. Assim, paralelamente ao que referi, defendemos que os Deputados eleitos devem trabalhar junto dos diversos agentes económicos da região, para, em conjunto, implementar estratégias que permitam vender a marca “Serra da Estrela” como um destino de excelência para quem nos visita ou para os que aqui escolherem viver. 

 

JSM: Também a saúde (centralização e difícil acesso aos serviços de saúde), as acessibilidades (autoestradas como A23 e A25 caras ou a IP3 em mau estado e com muito tráfego) e os transportes públicos (rede deficitária) são preocupações e acentuam as desigualdades entre o interior e o litoral. Que estratégias têm pensadas para melhorar estas dimensões? 

CP: Neste particular sou bastante crítico à atuação dos Deputados do PS e PSD que ao longo destes mais de 40 anos têm permitido que os portugueses que aqui residem sejam considerados menos portugueses que os portugueses de Lisboa e Porto. Ora, em Lisboa qualquer cidadão com 77 anos como o meu pai, consegue, autonomamente, deslocar-se a todos os hospitais e centros de saúde da região porque, para além de existirem várias soluções para se deslocar em transportes públicos, tem acesso a passes sociais a preços acessíveis. Ora na nossa região isso não acontece. Em termos de serviço de saúde, os idosos não têm oferta de qualidade na sua área de residência, nem têm oferta pública de transportes que lhes permita deslocar-se aos serviços de saúde disponíveis. 

Mas também os jovens e os trabalhadores que aqui vivem veem as suas necessidades de mobilidade limitada, não havendo soluções de transportes intermunicipais, por exemplo, o que encarece as suas deslocações para a escola ou para o trabalho, para além das consequências ambientais daí decorrentes. 

Creio que esta desigualdade entre regiões é uma grave violação dos direitos fundamentais dos cidadãos e que reflete a falta de solidariedade dos políticos para com os portugueses que aqui vivem. Quem vive na área metropolitana de Lisboa, para além de viver na área mais desenvolvida do país, tem acesso a apoios do Estado na saúde, na educação e nos transportes que os residentes no interior não têm. A discriminação positiva não é executada, porque os votos estão no Litoral. 

Isto só pode ser denunciado e combatido se o Interior tiver uma voz que o defenda e nós queremos ser essa voz na Assembleia da República. 

Nós somos promotores de soluções menos poluentes. As estradas são essenciais, mas a ferrovia e os transportes coletivos são a nossa prioridade. Por isso, iremo-nos bater pelo apoio público à rede de transportes coletivos de qualidade que promova a intermunicipalidade e também aqui, promover uma solução que articule redes locais de transporte rodoviário com a Rede Nacional de Expressos e o transporte Ferroviário. Não faz sentido descer numa estação de comboio ou num terminal rodoviário e não ter nenhuma opção de transporte público que permita qualquer pessoa de se deslocar para o seu destino. Esta situação por si só também é uma barreira ao desenvolvimento do turismo, porque sabemos que os turistas elegem o transporte público como a principal solução de mobilidade. 

JSM: Quais as expectativas para os resultados das eleições no concelho de Seia, no distrito e em território nacional? 

CP: Nós sabemos que estas eleições são combates difíceis para partidos pequenos como o LIVRE. Por diversas ordens de razão, não temos a projeção nem a atenção que é dada aos grandes partidos. O LIVRE é partido da esquerda moderada e assenta as suas políticas nos pilares das liberdades e direitos cívicos; da igualdade e da justiça social; do aprofundamento da democracia em Portugal e da construção de uma democracia europeia e da ecologia, sustentabilidade e respeito pelo meio ambiente. 

As lógicas partidárias levam os partidos de governo a se focarem mais nas regiões onde o número de votos é mais significativo. Lisboa elege 48 Deputados, enquanto a Guarda elege apenas 3 e todo o interior do País, de Bragança a Beja, apenas 23 Deputados. Se continuarmos a dar primazia e eco aos partidos de Governo a nossa realidade não mudará.

Durante mais de 40 anos confiámos nos partidos de sempre e deles nada recebemos. Nunca houve projetos que permitissem construir um futuro solidário e sustentável no interior; políticas dirigidas à fixação dos jovens; programas para a preservação da natureza e da biodiversidade, a nossa maior riqueza! 

É hora de dar a voz ao LIVRE. Uma voz incansável em defesa do nosso Interior. O nosso Lema é “Libertar o futuro numa sociedade justa e saudável!” 

Acreditamos que os eleitores de Seia, e do todo o Distrito da Guarda, começam a tomar consciência que devem preocupar-se, em primeiro lugar, em defender os seus próprios interesses e os da sua região e abdicar de se envolverem no campeonato dos grandes partidos. Esta mudança de atitude resulta do aumento do nível de exigência e é a única que permite lutar pela resolução dos nossos problemas. Esta perceção das pessoas dá-nos confiança e esperança de conseguirmos ser eleitos e com isso termos representatividade do interior no Parlamento. 

Ao nível nacional, tendo em conta que 46% dos candidatos inscritos nas listas do LIVRE são independentes, sem filiação partidária e que pertencem à sociedade civil, dá-nos um conhecimento mais concreto das verdadeiras preocupações das populações, na qual nos incluímos e permite-nos procurar soluções ajustadas à nossa realidade. Decorrente destas circunstâncias, estamos convictos que LIVRE será a nova força política a ter acento no Parlamento.

 

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