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Breves

As notícias das tragédias multiplicam-se, o número de naufragados sobe. De uma só vez, mais de 700 refugiados ficaram nas águas.
Estas notícias de todos os dias arrepiam, esta gente traz fome, desemprego, perseguições, torturas.

Estas notícias fizeram-me recuar aos anos da década de sessenta do século passado. Nesses anos da minha juventude eram muitos os portugueses que se entregavam a passadores, pagando viagens com dinheiro que não tinham, esperavam ganhar no país onde chegassem. A França, a Alemanha, os países da Europa, que estavam a reconstruir as cidades destruídas pela guerra, eram os destinos dos emigrantes portugueses nesse tempo.

Uns iam de barco, sem condições e sem segurança. Outros passavam fronteiras “a salto”, por montes, por atalhos, levados por “passadores” e por gente do contrabando. Muitos faziam distâncias para chegar às fronteiras da França escondidos em alçapões em camiões que transportavam gado para disfarçar as vigilâncias das polícias. Nem todos chegavam ao destino.

E havia redes de recrutamento que especulavam as necessidades dos outros.

Também a emigração portuguesa teve seus dramas, as suas tragédias. Restam muitas recordações, muitas memórias, muitos relatos. Um livro daquele tempo com título “A Salto” dá-nos a conhecer essas vidas. Já lá vão umas décadas. Os filhos e os netos da emigração dos anos 60, que povoam as periferias de Paris, cidades construídas por portugueses que daqui saíram de uma agricultura pobre, têm episódios de dificuldades e de tragédias em muitos aspectos parecidas como o que agora vemos no mar Mediterrâneo, memórias de despertar solidariedade com o que vemos.

Muitos portugueses, agora entre os 60 e os 80 anos, podem recordar viagens “a salto”, passagens clandestinas para chegar à França, à “Europa”, onde tinham trabalho, vida melhor.

Eram outros tempos! E outras culturas! As recordações da guerra estavam frescas e havia mais solidariedade entre as pessoas, havia trabalho, porque menos máquinas a fazer o que as pessoas fazem. Mais direitos e respeito por quem trabalhava.

E voltando à tragédia no Mediterrâneo. O que vemos e lemos resulta de políticas de exploração e do atiçar de guerras. Os países da Europa, os países desenvolvidos e que se dizem civilizadores têm responsabilidades na tragédia do Mediterrâneo.

As guerras levadas ao Iraque, ao Afeganistão, à Síria, à Líbia, sob pretexto de derrubar ditadores e levar democracias, derrubou ditadores, mas deixou outros ditadores. Não levou democracias, nem liberdade, nem paz. Destruiu e desarticulou economias e as administrações desses países. É desses países que chegam as vagas de imigrantes a fugir à fome, ao desemprego, às perseguições. Em barcos frágeis, sem segurança, pondo vidas em risco, servindo interesses de grupos mafiosos de negociantes da pobreza humana. Muitos acabam a viagem na morte. E ficamos a saber a dimensão da morte quando na desgraça escapam alguns com vida para relatar o que viram. Desde o início deste ano, já foram salvos 19.000 imigrantes. Dos que morreram não se fala, e são muitos milhares.
E são mulheres, crianças, gente sem nada, gente que carrega a fome, a miséria, o desemprego. Muitos sonhos de vida melhor. Desconhecem o futuro que os espera, para quase todos a exclusão social e a continuação da miséria, do desemprego. Para muitos a morte num cemitério de água.

Chegam das costas da Líbia, da Tunísia, do Egipto, de muitos países da África, da Ásia, depois de longos quilómetros por desertos, sempre nas margens de um fim trágico.

Chegam de onde as potências dos países ricos semearam guerras, despejaram bombas, onde vendem armas, desarticularam e destruíram economias.

Para impedir o comércio de refugiados, a UE deixa de parte soluções humanitárias para passar à construção de muros para conter esse fluxo de gente. Em vez de projectos humanitários, como era a missão salvadora “mare nostrum”, pensa agora em patrulhas a operar no alto-mar mediterrânico para impedir a chegada e devolver às origens aquelas ondas humanas de gente sem nada, perseguida e desprotegida. Pensam com essas medidas acabar com o contrabando humano que enriquece com o comércio de refugiados, cobrando entre 4.000 e 7.500 Euros por pessoa, pela passagem até chegar à Europa, fazendo trajectos por desertos em condições de miséria, de abusos, de maus tratos. As mulheres usadas sem respeito pela pessoa.
Chegados à Europa, é uma adaptação que nunca acontece. O desemprego continua.

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